“Não faças abdominais, que isso abre a barriga.” Já deve ter ouvido esta frase, ou uma parecida. Vem de boa intenção. Mas a evidência científica mais recente conta uma história diferente. Os abdominais na gravidez não são, por si só, o vilão que a cultura popular pinta. O problema nunca foi o exercício. Foi sempre a técnica, a intensidade e o contexto clínico de cada grávida.
Resposta direta: fazer abdominais na gravidez, com técnica adequada e supervisão adequada, não aumenta o risco de diástase abdominal. É o que mostra um ensaio clínico randomizado de 2024. Evitar por completo o treino abdominal na gravidez não tem, hoje, suporte forte na literatura científica disponível.
Porque se diz que os abdominais “abrem a barriga” na gravidez
A ideia nasce de uma observação real. A diástase dos retos abdominais é o afastamento dos dois músculos retos ao longo da linha média do abdómen. Acontece na grande maioria das gravidezes. É um processo natural, ligado ao crescimento do útero. Não é causado por fazer exercício abdominal.
Durante décadas, associou-se qualquer contração abdominal intensa a este afastamento. Fazia sentido, à primeira vista. Se o abdómen já estica com o crescimento do bebé, porque haveríamos de o sujeitar a mais tensão? Esta lógica ignora um dado importante. Um músculo abdominal forte e bem recrutado protege a parede abdominal. Não a enfraquece. Foi assim que a proibição total de abdominais na gravidez se tornou senso comum, sem grande sustentação científica.
O que a evidência diz sobre abdominais na gravidez
A boa notícia é que já não precisamos de depender apenas da intuição. Existem estudos desenhados especificamente para testar esta questão.
O estudo que testou exercício abdominal e diástase na gravidez
Um ensaio clínico randomizado, publicado em 2024, acompanhou grávidas com um programa supervisionado de exercícios abdominais e do pavimento pélvico. O resultado foi claro. Estas mulheres não apresentaram maior diástase dos retos abdominais do que as grávidas que não fizeram este tipo de exercício. Pelo contrário, o exercício supervisionado revelou-se seguro dentro do desenho do estudo. A chave dos abdominais na gravidez está na supervisão e na técnica. Não na proibição total do movimento.
O que recomenda a ACOG sobre exercício abdominal na gravidez
O <a href=”https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/committee-opinion/articles/2020/04/physical-activity-and-exercise-during-pregnancy-and-the-postpartum-period” target=”_blank” rel=”noopener”>American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG)</a> recomenda atividade física regular na gravidez, incluindo trabalho de força, sempre que não haja contraindicações. A orientação não exclui o treino abdominal. Pede, sim, adaptações. Evitar posições de barriga para cima prolongadas a partir do segundo trimestre. Evitar prender a respiração durante o esforço. E ajustar a intensidade à evolução do corpo. É esta lógica de adaptação, e não de proibição, que também orienta o nosso hub de exercício na gravidez.
Quando não fazer abdominais na gravidez: os sinais de alerta
Nem toda a grávida deve fazer abdominais na gravidez da mesma forma. Há sinais que pedem prudência. E outros que pedem paragem imediata:
- Dor abdominal, cólicas ou contrações durante o exercício.
- Perda de líquido amniótico ou hemorragia vaginal.
- Tonturas, falta de ar intensa ou dor no peito.
- Diagnóstico médico de gravidez de risco, incompetência cervical ou placenta prévia.
- Sensação de pressão ou abaulamento visível na linha média do abdómen durante o esforço.
Perante qualquer um destes sinais, o exercício deve parar. E a situação deve ser discutida com o médico ou a equipa de saúde que acompanha a gravidez. Vale recordar que muitos destes sinais se cruzam com sintomas da gravidez que já mereciam atenção por si só.
Como adaptar os abdominais na gravidez, trimestre a trimestre
A prescrição de exercício muda ao longo da gravidez. É aqui que entra a diferença entre proibir abdominais na gravidez e adaptar os abdominais certos para cada fase:
No primeiro trimestre, a maioria das grávidas sem contraindicações pode manter o treino abdominal habitual, com pequenos ajustes de intensidade. No segundo e terceiro trimestre, o foco muda. Priorizam-se exercícios que não exigem estar deitada de costas por longos períodos. E que trabalham o controlo da respiração e da pressão intra-abdominal. A prancha modificada, a respiração diafragmática e ativações do core em posições inclinadas tendem a substituir os abdominais tradicionais feitos deitada. O objetivo nunca é “queimar barriga”. É manter função, postura e controlo. E preparar o corpo para o parto e para a recuperação depois dele.
Esta prescrição deve ser sempre individualizada. O que é seguro para uma grávida já ativa pode não ser o ponto de partida certo para quem começa a exercitar-se agora. Um profissional de exercício com formação nesta área, em articulação com o médico, é o caminho mais seguro para adaptar o treino a cada trimestre.

Perguntas frequentes sobre abdominais na gravidez
Fazer abdominais na gravidez causa diástase abdominal? A evidência mais recente não confirma essa relação. Um ensaio clínico de 2024 mostrou que grávidas com exercício abdominal supervisionado não tiveram mais diástase do que as que não exerceram.
Posso continuar a treinar abdominais durante toda a gravidez? Na ausência de contraindicações, sim, com adaptações. A partir do segundo trimestre, evite posições prolongadas de barriga para cima. Priorize exercícios de core em posições inclinadas.
Que sinais indicam que devo parar de fazer abdominais? Dor, contrações, hemorragia, tonturas ou abaulamento visível na linha média do abdómen. Nestes casos, pare o exercício e contacte o seu médico.
A diástase abdominal na gravidez é sempre evitável? Não. É um processo fisiológico associado ao crescimento do útero, e ocorre na maioria das gravidezes independentemente do exercício. O treino adequado pode ajudar na recuperação da função abdominal depois do parto.
Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento por um profissional de saúde. Consulte sempre o seu médico, ou um profissional de exercício qualificado, antes de iniciar ou alterar qualquer treino na gravidez.

