Ácido fólico na gravidez: dose, quando e até quando

Ácido fólico na gravidez: dose, quando e até quando

Se há uma coisa que toda a gente te vai dizer nos primeiros dias, é para tomares ácido fólico. Poucos te explicam porquê, qual a dose certa, ou até quando. E há outra pergunta que quase ninguém responde com franqueza: e se eu só comecei agora? Neste artigo explicamos o que faz o ácido fólico na gravidez, a dose recomendada em Portugal, e que outros suplementos fazem sentido no primeiro trimestre.

O que faz o ácido fólico na gravidez

O ácido fólico é uma vitamina do complexo B, também conhecida como vitamina B9.

O seu papel principal nesta fase tem a ver com o tubo neural, a estrutura embrionária que dá origem ao cérebro e à medula espinal do bebé.

O tubo neural forma-se e fecha-se muito cedo, nas primeiras semanas de gestação. Na prática, isso acontece muitas vezes antes de a mulher sequer saber que está grávida.

A suplementação com ácido fólico reduz de forma significativa o risco de defeitos do tubo neural, como a espinha bífida. É uma das intervenções preventivas mais bem estabelecidas de toda a saúde materna.

Existe em alimentos, sobretudo em vegetais de folha verde escura, leguminosas, ovos e frutos secos. Mas é difícil garantir a quantidade necessária só pela alimentação, e por isso a recomendação é de suplemento.

Qual é a dose de ácido fólico recomendada

Em Portugal, seguindo o Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco da Direção-Geral da Saúde, a dose recomendada é de 400 microgramas por dia.

Encontras na farmácia sob a forma de comprimidos de 0,4 mg, que é exatamente o mesmo. Não precisa de receita médica.

Há situações em que a dose recomendada é bastante superior, na ordem dos 4 a 5 miligramas por dia. Isso aplica-se, por exemplo, a mulheres com antecedentes de gravidez com defeitos do tubo neural, com epilepsia sob determinada medicação, ou com diabetes.

Essa decisão é sempre do médico. Não aumentes a dose por tua conta, e desconfia de quem te diga que mais é sempre melhor.

Quando começar e até quando manter

O ideal é começar antes de engravidar, pelo menos um mês antes, precisamente porque o tubo neural fecha tão cedo.

Na prática, a maioria das gravidezes em Portugal não é assim tão planeada, e a maioria das mulheres começa depois do teste positivo.

Se é o teu caso, começa hoje. Não é uma falha, é o cenário mais comum que existe, e continuar a pensar nisso não te ajuda em nada.

Quanto à duração, a orientação em Portugal é manter até às 12 semanas e 6 dias de gestação, ou seja, até ao final do primeiro trimestre.

Alguns profissionais recomendam manter para além disso, integrado num suplemento de gravidez. Segue a indicação de quem te acompanha.

Se não tens a certeza da semana em que estás, o artigo sobre como calcular as semanas de gravidez resolve isso em dois minutos.

O iodo, o suplemento de que ninguém fala

Este é o que mais passa despercebido, e em Portugal é particularmente relevante.

A Direção-Geral da Saúde recomenda, desde 2013, suplementação com iodo sob a forma de iodeto de potássio, na dose de 150 a 200 microgramas por dia, desde o período pré-concecional, durante toda a gravidez e enquanto durar a amamentação exclusiva.

A razão é o desenvolvimento do sistema nervoso central do bebé, que depende das hormonas da tiroide, que por sua vez dependem do iodo.

E a razão pela qual isto é uma recomendação nacional e não uma nota de rodapé: um estudo alargado a milhares de grávidas portuguesas identificou défice de iodo numa larga maioria das participantes, com números especialmente preocupantes nas ilhas e no interior.

Ainda assim, esta recomendação nem sempre chega às consultas. Se ninguém te falou dela, pergunta.

E os outros suplementos?

Aqui vale a pena separar o que é recomendado por rotina do que é recomendado consoante o caso.

Ferro. Não é dado por rotina no início. É prescrito se as análises mostrarem que faz falta, tipicamente a partir do segundo trimestre.

Vitamina D. Depende dos teus níveis e do teu contexto. É avaliação individual, não suplementação automática.

Ómega 3, cálcio, multivitamínicos de gravidez. Podem fazer sentido, sobretudo se tiveres uma alimentação restritiva, se fores vegetariana ou vegana, ou se tiveres náuseas fortes que te limitem muito o que consegues comer.

Se as náuseas estão a condicionar-te a alimentação, vale a pena leres o que é normal sentir em cada trimestre e falares com a tua equipa. Há coisas que ajudam.

Uma regra prática que serve para tudo isto: leva a lista completa do que tomas, incluindo suplementos comprados por iniciativa própria, à tua primeira consulta de gravidez. Alguns suplementos de venda livre têm doses muito acima do recomendado.

O que não precisas de comprar

Há uma indústria inteira construída à volta deste momento, e nem tudo o que ela vende é necessário.

Não precisas do suplemento de gravidez mais caro da farmácia. O ácido fólico de 400 µg custa poucos euros.

Não precisas de comprar cinco frascos diferentes. Muitos suplementos de gravidez já combinam ácido fólico e iodo numa só toma, o que é mais simples de cumprir.

Não precisas de qualquer produto que prometa resultados sobre o teu corpo. Nada disso tem lugar aqui.

E não precisas de mudar radicalmente a forma como comes. Há alimentos a evitar por questões de segurança alimentar, mas a suplementação não substitui nem exige uma reformulação da tua alimentação. Falamos de alimentação e movimento com mais detalhe no pilar de corpo e movimento.

Se acabaste de descobrir que estás grávida e queres perceber a ordem das coisas, começa pelo guia dos primeiros passos depois de um teste positivo. O ácido fólico é o passo dois, e é o único verdadeiramente urgente.


Este conteúdo tem carácter informativo e educativo, e não substitui uma consulta médica ou de enfermagem. Qualquer suplementação durante a gravidez deve ser prescrita e vigiada pelo médico ou enfermeiro que te acompanha, sobretudo se tomas outra medicação. Em caso de dúvida, contacta a Linha SNS 24 (808 24 24 24).