Ligar ao centro de saúde e dizer em voz alta que estás grávida é, para muita gente, o momento em que isto se torna real. E depois vem a dúvida seguinte: para quando é que devo marcar? Muito cedo é cedo demais? E se eu preferir ir a um privado? Neste artigo explicamos quando deve acontecer a primeira consulta de gravidez em Portugal, o que se passa lá dentro, e como funciona a escolha entre SNS e privado.

Quando deve ser a primeira consulta de gravidez
A norma da Direção-Geral da Saúde é clara neste ponto. Todas as grávidas devem ter acesso a uma primeira consulta de gravidez entre as 6 semanas e 0 dias e as 9 semanas e 6 dias de gestação.
Preferencialmente nos cuidados de saúde primários, ou seja, no teu centro de saúde, com o médico ou enfermeiro de família.
Na prática, isto significa que ligas assim que souberes. A marcação pode demorar algum tempo, e é melhor estares na lista cedo.
Se não fazes ideia de quantas semanas tens, o artigo sobre como calcular as semanas de gravidez resolve isso antes de pegares no telefone.
Há situações em que o acompanhamento é feito desde o início em unidade hospitalar, nomeadamente em gravidezes de vigilância acrescida. Isso é avaliado caso a caso, com base no teu historial clínico.
Como marcar, passo a passo
Liga para o teu centro de saúde ou usa a app SNS 24.
Diz que estás grávida e que precisas de marcar a primeira consulta de vigilância da gravidez. É essa a expressão que a administrativa espera ouvir.
Se não tens médico de família atribuído, diz isso na chamada. Continuas a ter direito a acompanhamento, e a unidade tem de te encaminhar.
O acompanhamento da gravidez no SNS é gratuito. As grávidas estão isentas de taxas moderadoras, e essa isenção estende-se aos 60 dias após o parto.
Não precisas de levar o teste de urina que fizeste em casa. Ninguém te vai pedir para o mostrar.
O que acontece na primeira consulta
Vais falar bastante mais do que imaginas. A maior parte desta consulta é conversa, não exame.
História clínica. Vão perguntar-te pela data da última menstruação, pelo teu ciclo, por gravidezes anteriores, por doenças, cirurgias, alergias, e por antecedentes familiares. Vale a pena chegares com estas respostas pensadas.
Medicação e suplementos. Leva a lista completa de tudo o que tomas, incluindo o que compraste sem receita. Alguns fármacos precisam de ser ajustados, e nenhum deve ser interrompido por tua conta.
Avaliação inicial. Tensão arterial e outros parâmetros de base.
Pedido de análises e ecografia. Sais com os pedidos das análises do primeiro trimestre e da ecografia, que em Portugal se realiza entre as 11 e as 13 semanas e 6 dias.
Suplementação. Deve ser confirmada a toma de ácido fólico e falada a suplementação de iodo. Se não te falarem no iodo, pergunta. Explicamos porquê no artigo sobre ácido fólico e suplementação.
Boletim de Saúde da Grávida. É aqui que o recebes.
O Boletim de Saúde da Grávida é o teu documento mais importante
Vale a pena insistir neste ponto, porque muita gente o subestima e depois anda à procura dele às pressas.
O boletim acompanha todo o teu historial: análises, ecografias, tensões, evolução. É o documento que a equipa da maternidade vai querer ver no dia do parto, e é por isso que ele entra na mala da maternidade mais tarde.
Serve também para dois efeitos práticos imediatos. Dá-te atendimento prioritário nos serviços públicos, e pode ser usado para informar a tua entidade empregadora de que estás grávida, quando decidires fazê-lo. Falamos dessa decisão em quando e como contar que estás grávida.
Anda com ele contigo nas consultas. Todas.
SNS ou privado: tens mesmo de escolher?
Não. E muita gente em Portugal faz os dois.
Pelo SNS, tens o acompanhamento completo e gratuito, com o calendário de consultas, análises e ecografias definido a nível nacional. O parto e o internamento em hospital do SNS também são gratuitos.
No privado, o que compras sobretudo é tempo de consulta, continuidade com o mesmo profissional, e maior flexibilidade de horários. Se tens seguro de saúde, confirma o que está coberto e em que condições.
O modelo misto mais comum é manter o seguimento no centro de saúde, que garante os pedidos de análises e o boletim, e fazer consultas ou ecografias adicionais no privado.
Duas notas práticas. Se fizeres seguimento privado, leva sempre os resultados ao SNS para ficarem registados no boletim. E se pensas ter o bebé numa maternidade do SNS, mantém o seguimento público ativo, porque a referenciação hospitalar acontece por essa via, por volta das 36 semanas.
O que levar e o que perguntar
Leva o cartão de cidadão, o cartão de utente, a data da última menstruação, e a lista da medicação.
E leva perguntas escritas. Vais esquecer-te de metade delas, é garantido.
Algumas que valem sempre a pena: a minha gravidez é considerada de baixo risco? Posso manter a atividade física que faço? Que sinais me devem fazer contactar-vos com urgência? Quando é a próxima consulta?
Sobre a atividade física, se já eras ativa, a resposta na esmagadora maioria dos casos é sim. O que a evidência diz está no pilar de exercício na gravidez.
Se estiveres nervosa, é normal
Muita gente chega a esta consulta com medo de ouvir alguma coisa má.
O que costuma acontecer é bem menos dramático: uma conversa longa, alguns papéis, e a sensação de que agora há um plano.
Se entretanto surgirem sintomas que te preocupem antes da consulta, não esperes. O guia do que é normal sentir em cada trimestre ajuda a distinguir o esperado do que merece atenção, e a Linha SNS 24 existe para as dúvidas que ficam.
E se ainda estás na fase de perceber por onde começar, o guia dos primeiros passos depois de um teste positivo põe tudo por ordem de urgência.
Este conteúdo tem carácter informativo e educativo, e não substitui uma consulta médica ou de enfermagem. O plano de vigilância da tua gravidez é definido pelo profissional de saúde que te acompanha, em função do teu caso. Em caso de dúvida, contacta a Linha SNS 24 (808 24 24 24). Em emergência, liga 112.

