Preparação para o parto: o guia completo

Preparação para o parto: o guia completo

Há uma ideia errada sobre a preparação para o parto que convém desmontar já: preparar o parto não é aprender a controlá-lo.

Ninguém controla um parto. Nem tu, nem a equipa, nem o plano mais bem escrito do mundo. O que a preparação faz é outra coisa, e é uma coisa que vale muito: reduz o medo do desconhecido, dá-te vocabulário para falares com quem te acompanha, e faz com que as decisões que aparecerem no dia não te apanhem em branco.

Este guia reúne o lado prático e o lado emocional, porque os dois contam da mesma maneira. A partir dele podes ir para os artigos mais detalhados de cada tema.

O que é a preparação para o parto (e o que não é)

Preparação para o parto é o conjunto de coisas que fazes nos últimos meses para chegares ao dia informada e acompanhada.

Inclui saber o que acontece no corpo, conhecer as opções que existem, decidir o que preferes, e ter a logística tratada.

Não inclui garantir um determinado tipo de parto. Não inclui aprender uma técnica de respiração que resolve tudo. E não inclui, de todo, chegar lá com a obrigação de ser corajosa.

Há uma frase que costuma ajudar: a preparação não serve para o parto correr como imaginaste, serve para tu não estares perdida se ele correr de outra forma.

Quando começar a preparação para o parto

A maior parte das coisas acontece entre as 28 e as 36 semanas, mas há uma sequência que faz sentido.

Por volta das 20 semanas, começa a informar-te e, se quiseres frequentar um curso, é altura de te inscreveres. Muitas inscrições abrem nesta fase.

Entre as 28 e as 32 semanas, arrancam tipicamente os cursos, e é quando começas a pensar no plano de parto.

Entre as 32 e as 34 semanas, preparas a mala e tratas dos documentos.

Por volta das 36 semanas, és referenciada para a consulta no hospital onde vais ter o bebé. Essa consulta hospitalar acontece normalmente perto das 39 semanas.

Se ainda estás longe destas semanas, não há pressa nenhuma. Nada nesta página precisa de ser feito hoje.

Cursos de preparação para o parto em Portugal

Esta é a parte que mais gente desconhece: os cursos no SNS existem, são gratuitos, e são dados por enfermeiros especialistas em saúde materna e obstetrícia.

São organizados por hospitais, unidades locais de saúde ou unidades de cuidados na comunidade. As regras variam de sítio para sítio, mas o padrão mais comum é inscrição a partir das 20 semanas e sessões a partir das 28.

Os temas costumam cobrir fisiologia do trabalho de parto, pavimento pélvico, métodos de alívio da dor farmacológicos e não farmacológicos, amamentação, cuidados ao recém-nascido e pós-parto. Muitos incluem visita à maternidade, o que reduz imensa ansiedade no dia.

No privado, os cursos custam tipicamente entre 100 e 200 euros por um pacote de sessões para o casal. O que compras é sobretudo horário, grupos mais pequenos e formato online se preferires.

Uma nota que quase ninguém dá: a preparação para o parto é equiparada a consulta pré-natal para efeitos de faltas ao trabalho. Ou seja, tens direito a ausentar-te para lá ir. Os teus direitos completos estão reunidos no guia dos direitos da grávida em Portugal.

Como saber qual é o teu curso? Pergunta na consulta de vigilância ou liga ao serviço de obstetrícia do hospital onde vais ter o bebé. Não há um sítio central que liste isto, o que é uma falha do sistema e não tua.

As três fases do trabalho de parto

Em traços largos, o trabalho de parto divide-se em três.

Primeira fase, a dilatação. É a mais longa. Começa numa fase latente, em que as contrações se organizam e o colo do útero amadurece, e passa a uma fase ativa, em que a dilatação progride de forma mais rápida e as contrações se tornam intensas e regulares.

Segunda fase, o expulsivo. Vai da dilatação completa até ao nascimento.

Terceira fase, a dequitadura. A expulsão da placenta, que acontece nos minutos seguintes ao nascimento.

Os tempos variam muitíssimo, sobretudo entre uma primeira gravidez e as seguintes. Ninguém te consegue dizer quanto tempo vai demorar, e desconfia de quem tentar.

Opções de alívio da dor no parto

Existem dois grandes grupos, e não são alternativas exclusivas. Muita gente usa os dois.

Métodos não farmacológicos: liberdade de movimento e mudança de posições, bola de parto, água quente ou hidroterapia onde exista, massagem, técnicas de respiração, e a presença de alguém que te apoie.

Métodos farmacológicos: a analgesia epidural é o mais usado, e há outras opções que a equipa te pode explicar.

Duas coisas honestas sobre a epidural.

Não é uma decisão que tenhas de tomar hoje, nem sequer que tenhas de deixar fechada no papel. Podes mudar de ideias durante o trabalho de parto, e mudar de ideias não é falhar em nada.

E a disponibilidade pode variar consoante o hospital e o momento. Vale a pena perguntares na consulta hospitalar como funciona na tua maternidade, em vez de assumires.

Não há forma correta de parir. Quem escolhe epidural não está a facilitar, e quem não escolhe não está a provar nada a ninguém.

O plano de parto: escrever o que queres

Um plano de parto é o documento onde registas as tuas preferências, para o trabalho de parto, para o nascimento e para as primeiras horas.

Não é obrigatório e não é um contrato. É uma ferramenta de comunicação, recomendada pela Organização Mundial de Saúde e já prevista nas orientações da Direção-Geral da Saúde.

Escreve-o em linguagem flexível, discute-o numa consulta, e leva cópia contigo.

Tudo sobre o que incluir, quando entregar e o que esperar da recetividade dos hospitais está no artigo dedicado ao plano de parto.

Reconhecer os sinais de que o parto começou

O sinal fundamental é um só: contrações uterinas com padrão, que se tornam mais frequentes, mais longas e mais intensas, e que não passam com repouso.

A perda do rolhão mucoso e a barriga a descer indicam que o corpo se está a preparar. Não indicam que o trabalho de parto começou.

Se a bolsa romper, deves dirigir-te à maternidade mesmo sem contrações.

Há também sinais que exigem contacto imediato com a Linha SNS 24 ou ida à urgência, independentemente de tudo o resto, nomeadamente perda de sangue abundante ou diminuição clara dos movimentos do bebé.

O detalhe completo, incluindo a regra 5-1-1 e a lista de sinais de alerta, está no artigo sobre sinais de trabalho de parto.

Preparar o essencial: mala, documentos e logística

A parte prática resolve-se numa tarde e depois deixa de ocupar espaço na cabeça.

O que não pode falhar são os documentos: cartão de cidadão, Boletim de Saúde da Grávida com as análises e ecografias do terceiro trimestre, cartão de utente, e cópia do plano de parto se tiveres feito um.

O resto é roupa para dois ou três dias, produtos de higiene, e a cadeira auto homologada instalada com antecedência.

Confirma na tua maternidade o que é fornecido durante o internamento, porque varia bastante e evita levares coisas a mais.

O checklist completo, com o que levar e o que podes deixar em casa sem culpa, está no artigo sobre a mala da maternidade.

Preparar o corpo para o parto

Esta é a parte mais subvalorizada da preparação, e é aquela em que a evidência é mais clara.

Manter atividade física adaptada ao longo da gravidez está associado a melhor tolerância ao esforço, menos desconforto lombar e melhor recuperação. Não é uma questão estética e não tem nada a ver com o teu corpo. É preparação física para um esforço físico.

O trabalho de pavimento pélvico merece atenção específica nos últimos meses, e é território de enfermeiros especialistas e fisioterapeutas com formação na área. Muitos cursos de preparação já o incluem.

Mobilidade da bacia, posições, e simplesmente continuar a caminhar são coisas simples que fazem diferença.

O que a evidência diz sobre exercício em cada fase da gravidez está reunido no pilar de exercício na gravidez.

O lado emocional: o medo faz parte da preparação

Ter medo do parto não é fraqueza nem falta de preparação. É a resposta mais comum que existe.

Medo da dor, medo de perder o controlo, medo de que algo corra mal, medo de não saber ser mãe. Muitas vezes tudo ao mesmo tempo, e muitas vezes em cima de um corpo já cansado da reta final.

Três coisas ajudam de forma consistente.

Informação concreta, porque grande parte do medo é medo do desconhecido, e o desconhecido encolhe quando lhe pões nomes.

Falar. Com o teu companheiro ou companheira, com a tua equipa de saúde, com outras mulheres que passaram por isto. Guardar tudo cá dentro é a pior estratégia disponível.

E dizê-lo em consulta. Se o medo está a ocupar demasiado espaço, se estás a ter dificuldade em dormir ou a evitar pensar no assunto, isso é informação clínica relevante e a tua equipa quer sabê-la. Há apoio, e pedi-lo não é exagero.

Se estás a sentir sintomas físicos nesta fase e não sabes se são normais, o guia do que é normal sentir em cada trimestreajuda a separar o esperado do que merece atenção.

Quem pode estar contigo

Em Portugal tens direito a ser acompanhada durante o trabalho de parto por uma pessoa da tua escolha, sem custos adicionais.

Este direito pode, excecionalmente, não ser possível em situações clínicas específicas ou por limitações do serviço, mas é a regra e não a exceção.

Escolhe alguém que te acalme, não alguém que aches que tem obrigação de lá estar. E prepara essa pessoa: que ela conheça o teu plano de parto, que saiba onde está a mala, e que saiba reconhecer os sinais. Um acompanhante informado vale mais do que um acompanhante presente.

Também é bom saber que o transporte em ambulância para a maternidade no momento do parto é gratuito, e que o parto e o internamento em hospital do SNS não têm custos.

Por onde começar

Se estás nas 28 semanas ou mais, a ordem que sugerimos é simples: inscreve-te num curso, escreve o plano de parto, prepara a mala, e aprende os sinais.

Se ainda estás longe, guarda esta página e volta cá mais tarde. Se estás no início de tudo e chegaste aqui por curiosidade, o guia dos primeiros passos depois de um teste positivo é o sítio certo para começar.

E se saíres daqui só com uma ideia, que seja esta: não precisas de estar preparada para tudo. Precisas de estar acompanhada e de saber a quem perguntar.


Este conteúdo tem carácter informativo e educativo, e não substitui uma consulta médica ou de enfermagem. As decisões sobre o teu parto devem ser sempre discutidas com o médico, enfermeiro especialista ou equipa de saúde responsável pelo acompanhamento da tua gravidez. Em caso de dúvida, contacta a Linha SNS 24 (808 24 24 24). Em emergência, liga 112.